Consideração e aviso

CONSIDERAÇÃO — Os cariocas dão o nome de “consideração” a certa espécie de amor que não diz que ama. Eu te considero é um eu te amo disfarçado. A língua do carioca (sua mentira-carioca, que não por acaso é o nome de um biscoito) é coisa íntima e mascarada, mascarada só o suficiente. Aqui, “considerar” significa tanto “olhar com atenção e carinho” como “sofrer junto a influência (funesta ou não) dos astros”. Por isso mesmo, nem todo carioca legítimo nasceu no Rio de Janeiro (a definição de Jayme Ovalle: “carioca é um sujeito nascido no Espírito Santo ou em Belém do Pará.”). É esta a lógica desta cidade e a destes fragmentos.

AVISO — Ser no máximo como um dos amigos do pai de Pascal, M. Le Pailleur, de quem se diz, numa nota de rodapé: “Le Pailleur, adido à casa da marechala de Thémines, não era um sábio profissional. Mas seus contemporâneos citavam-no amiúde como um amador avisado.” Ser no máximo este verso de cummings, mas sem o crucifixo e o cheiro de incenso: “eu sou uma igrejinha (não grande catedral)”. A arquitetura diminuta diante do arrepio cósmico. Toda catedral é uma ruína postergada: o mesmo é um sistema solar.

VICTOR HERINGER (Rio, 1988), escritor. Autor de Glória (romance, 7Letras, 2012, prêmio Jabuti) e automatógrafo (7Letras, 2011), entre outros. (Foto: L.R. Negrão)

VICTOR HERINGER (Rio, 1988), escritor. Autor de Glória (romance, 7Letras, 2012, prêmio Jabuti) e automatógrafo (7Letras, 2011), entre outros. (Foto: L.R. Negrão)

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