Sobre a tinta no “Monumento às Bandeiras” e no Borba Gato

“Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie.”
− Walter Benjamin, As teses sobre o conceito da história (1940)

 

O Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera, Zona Sul de São Paulo (SP), amanhece pichado com tintas coloridas nesta sexta-feira (30). Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press

O Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera, Zona Sul de São Paulo (SP), amanhece pichado com tintas coloridas nesta sexta-feira (30). Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press

O Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret, amanheceu pintado hoje (30), de azul, amarelo e rosa – as mesmas cores usadas no ataque balístico-pigmentário à imensa estátua do bandeirante Borba Gato (por Júlio Guerra). O incidente foi tratado como “vandalismo” (uma palavra que é nossa velha conhecida e que adquiriu uns tons mais sinistros desde 2013) nos meios de massa e como “resistência” ou “iconoclastia” nos círculos progressistas.

Vivi em São Paulo por uns anos e, como constante estrangeiro, o fascínio paulista pela figura do bandeirante sempre me pareceu algo pouco ruminado, como o amor que alguns de nós nutrimos por caubóis e pela invasão do Oeste americano, informados pelo cinema de bangue-bangue. Os desbravamentos, depois de um tempo, perdem a sua conexão com a orgia sanguinária que realmente foram e ficam na memória como atos de heroísmo. Mas essa é uma visão construída, como – é bom lembrar – foi construído o mito do herói grego. Basta lembrar o verso de Jorge de Sena (“Em Creta, com o Minotauro”): “Teseu, o herói, e, como todos os gregos heroicos, um filho da puta, riu-lhe no focinho respeitável”.

Vivi em São Paulo por uns anos, mas não é a minha cidade. Tenho para mim que a cidade é dos cidadãos (nascidos ou afetivos) – eles decidem quais monumentos devem ou não ser mantidos no espaço público. Poderia lamentar a desaparição de uma obra de Brecheret e comemorar a derrubada do feioso Borba Gato – e defenderia o patrimônio artístico de São Paulo contra um bombardeio, por exemplo, mas as obras não foram bombardeadas. Não se trata do Daesh em Palmira. É uma questão de narrativa histórica e do espaço urbano paulistano.

O nosso pacto meio burguês-retinto, meio de esquerda, coloca a rua como local de disputa por excelência. Poucos de nós, hoje, renderíamos nosso conforto a experiências como a alemã Kommune 1 (foco de um vídeo ótimo de Annika Eriksson), que se propunha a implodir o núcleo da família de classe média, supostamente a “estufa do fascismo”. Pois à rua então, é o que temos.

Toda intervenção no espaço urbano, evidentemente, carrega uma mensagem pública. E, pelas cores usadas, pelo caráter festivo (quase um entrudo) das sapecadas dadas no Borba Gato, a coisa não me pareceu muito sinistra. Lembrou o vandalismo de carnaval, quando os bêbados vestem as estátuas portuguesas com suas fantasias de índio ou fazem perucas de espuma no cabeção do Getúlio Vargas na Glória. Uma intervenção à la Oswald de Andrade, para quem a alegria era a prova dos nove.

O Monumento às Bandeiras e o Borba Gato

Como obra escultórica, a homenagem ao Borba Gato é profundamente problemática. A questão do gosto – é cafona, em mais de um sentido – vem a reboque de outra mais funda: é uma estátua simplesmente laudatória, como diversas outras que brotam nas cidades de todo o mundo. Aqui está um homem (geralmente é um homem), olhem o homem, o nome do homem é Fulano. O fulano em questão poucas vezes foi inofensivo, bonachão, amigo de seus vizinhos. Há estrondosamente mais monumentos a assassinos do que a sapateiros, confeiteiros de bairro e cães. O problema com fulanos poderosos é que, quando os ventos mudam, suas estátuas começam a ser derrubadas. Sobretudo se foram entalhados com instrumentos de opressão, como o Borba Gato empunha orgulhosamente sua escopeta. Nenhum poder é para sempre.

E os escultores precisam trabalhar.

O Monumento às Bandeiras de Brecheret, por outro lado, tem nuances que fazem dele, pelo menos aos olhos dos paulistanos, uma obra fértil. Mais de uma vez me contaram a “lenda”: as figuras na frente da embarcação, que supostamente a estão puxando, na verdade deixam todo o trabalho para a pobre figura na popa, que empurra o barco sozinho. Então, por mais laudatório que pareça (e, convenhamos, parece muito), há algo que permanece como ponto-pólvora de pensamento. A capacidade de fertilizar pensamento é a pedra de toque da obra de arte.

O Brecheret monumental lembra outra obra-monumento, do russo Ilya Repin, retratando os barqueiros do rio Volga, no qual uma figura, iluminada em meio aos sombrios homens que rebocam um navio para a praia, faz menção de retirar as cordas que o prendem ao peso monstruoso.

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“Rebocadores do Volga” (1970-73), Ilya Repin

Há na Rússia uma canção famosa (“Эй, ухнем!”), popularmente conhecida como “Canção dos barqueiros do Volga”, que, como no caso bandeirante, tende a inflamar instintos nacionalistas. Essa figura iluminada e indignada é o caroço-pensante de Ilya Repin, como a figura da popa é o de Brecheret.

Isso significa que vale mais preservar o Brecheret que o Borba Gato? Como ambas estão no espaço público paulistano, cabe ao paulistano decidir. Há povos que preferem catalogar e ruminar eternamente sua história e há outros que preferem fazer tabula rasa simbólica e reescrevê-la.

A tinta chama o debate.

Victor Heringer

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