Fotografia analógica

Como muitos da minha geração, sinto certo fascínio pela fotografia analógica. Gosto das suas precariedades, dos erros irreversíveis, do dedo sem querer na frente da lente, das descolorações, da pose queimada e das bordas de fogo nas quase-queimadas.

A recente popularização das velhas dianas, máquinas fotográficas de plástico (um brinquedo antigo hoje vendido a centenas de reais em lojas de presente), e da lomografia em geral não é um acaso. Sentimos nostalgia da lentidão analógica, do aparente descontrole proporcionado pelas câmeras velhas e pela revelação em papel. É o mesmo impulso que faz com que nativos digitais escrevam seus poeminhas, mais do que à mão, na máquina de escrever.

Não são raros na internet os tutoriais para manipular os filmes virgens de modo a que pareçam mais precários, descoloridos, riscados, manchados.

Há alguns meses carrego, além da câmera digital e do celular, pequenas kodaks descartáveis. São objetos que causam desconforto quando, por exemplo, peço a um passante para tirar uma foto minha. Por uns segundos, imaginam ser uma pegadinha, um golpe publicitário ou deus sabe lá. Os mais novos sequer sabem manejá-la. Seu instinto é ignorar completamente o visor, como se empunhassem um celular e, na falta da imagem reproduzida na telinha, conseguissem sentir o enquadramento.

Com as kodaks me permito muita displicência. Uma espontaneidade e um abandono, como se o aparato fosse mesmo um brinquedo. Quase não há preocupação técnica (nem mesmo com o dedo na frente da lente), algo inadmissível com a câmera digital (uma Canon t5i) ou mesmo com o celular. Aliás, a escala de preocupação estética ao fotografar é exatamente esta: câmera descartável ou analógica familiar > celular > câmera digital. Jamais emprestaria a Canon a um passante.

O resultado é gritante. As fotos saem ruins e, por isso mesmo, gosto delas. Parecem mais sólidas (embora eu também possa imprimir fotos digitais), como se o processo de revelação do filme concedesse maior densidade às imagens no papel. No entanto, são menos sólidas: na última visita à fotóptica, das 54 poses que revelei, cerca de 20 não saíram. Queimaram, se perderam, adeus. Fotos com amigos que não verei tão cedo sumiram para sempre, um risco que corri conscientemente (pois estava com o celular e com a câmera).

Se toda fotografia fala de uma ausência, a analógica precária vem com a ausência embutida em seu mecanismo-mesmo de captação e reprodução.

Por isso, quando retrato as faces que passaram por mim um dia (um projeto vitalício com o título sempre provisório de Faces), prefiro as kodaquinhas. Estão para os retratos com foco, lente boa e câmera cara o que os retratos de Nan Goldin estão para o corretíssimo William-Adolphe Bouguereau.

Caminhão vende-frutas em Nova Friburgo, RJ.

Caminhão vende-frutas em Nova Friburgo, RJ.

 

Poço Feio, Lumiar, RJ.

Poço Feio, Lumiar, RJ.

 

Dimitri, em seu lançamento em São Paulo, para o Faces.

Dimitri, no lançamento de seu livro, OCUPA, em São Paulo – SP, para o Faces.

 

O poeta Bobby Baq em São Paulo, SP, para o Faces.

O poeta Bobby Baq em São Paulo, SP, para o Faces.

Victor Heringer

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