Zweig e a origem da obra de arte

[…] o que eu procurava eram escritos originais ou esboços de poemas ou composições, pois que me interessava mais do que qualquer outra coisa era o problema da origem de uma obra de arte, tanto nas formas biográficas quando nas psicológicas. Aquele misterioso segundo de transição, quando um verso, uma melodia sai do invisível e entra para a esfera terrena a partir da visão e da intuição e da fixação gráfica de um gênio: onde mais pode ser perscrutada, verificada, do que nos escritos originais feitos com muita luta ou produzidos como que em transe? Não posso conhecer um artista se tenho diante de mim apenas a sua obra já pronta, e assumo inteiramente a palavra de Goethe de que, para compreender as grandes criações, não basta vê-las em sua perfeição, mas também durante a sua evolução. Mas também em termos puramente visuais, um primeiro esboço de Beethoven, com seus traços selvagens, impacientes, sua incrível barafunda de motivos iniciados e rejeitados, com a fúria criadora de sua natureza demoníaca, tem para mim um efeito intelectualmente excitante; sou capaz de contemplar, encantado e apaixonado, uma dessas folhas cheias de hieróglifos, como outros um quadro já pronto. Uma página corrigida de Balzac, em que praticamente cada frase está dilacerada, cada linha reescrita, a margem branca roída de tantos traços, sinais e palavras, é para mim a imagem de um Vesúvio humano.

Stefan Zweig, Autobiografia: o mundo de ontem (Zahar, 2014)

 

Victor Heringer

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