Todo poder à praia!

“O prazer nasce da água que flagela.”
Alain Corbin

Nesses dias, tenho pensado muito na praia. Antes, para ser sincero, tenho pensado muito naquele trecho de Jacques Rancière, em O ódio à democracia: “Não vivemos em democracias. Vivemos em Estados de direito oligárquicos, em um admirável sistema que dá à minoria mais forte o poder de governar sem distúrbios”. Tenho pensado que talvez o baile de golpes brasileiro seja a “esperteza ao contrário” da classe política nacional. A constante abertura para o distúrbio pode ser oportunidade (a nossa), é nisso que tenho pensado.

Mas também tenho pensado na praia. Tenho pensado no Cangaço, não só o de Lampião. Antes, para ser sincero, preciso explicar que estes primeiros parágrafos orbitam ao redor da figura do Mariano. Este é o Mariano, em sua antiga casa, no Rio de Janeiro:

Mariano Marovatto + Cangaço

Deem olá ao Mariano. Pois bem, tenho pensado no Cangaço, não só o de “Lampião”, que, aliás, é o título de uma canção do disco novo dele (o Selvagem):

Aquela tela verde na sala do Mariano, onde se lê “TODO PODER À PRAIA!”, é uma canga. Aqui, uma foto com os meninos do Ornitorrinco e o sorridente ativista franco-alemão Daniel Cohn-Bendit, após uma entrevista:

Opavivará + Ornitorrinco

Pardal, Domingos, Cohn-Bendit, Vitor e Júlio

A canga faz parte de Cangaço (2013), um trabalho do coletivo Opavivará!, que, nos remelexos das manifestações de 2013, distribuiu cangas no Arpoador com os dizeres: ABAIXO AS CALÇAS, XÔ CHOQUE, SURUBA NÃO É FORMAÇÃO DE QUADRILHA, TODO O PODER À PRAIA e ASSASSINARAM O CAMARÃO.

A minha preferida, isto é, a que imagino ter maior fertilidade de pensamento, é a que ficava na sala do Mariano. Primeiro porque é na praia que, seminu, vulnerável e coletivo, descubro meus verdadeiros amores e, portanto, onde negocio os meus poderes com os poderes do mundo. Segundo porque é uma frase ótima. Não só confere poder à praia (que a praia tenha todo o poder), mas envia todos os poderes à praia, território igualitário, como reza a velha lenda carioca, ou “território do vazio”, como no título do livro de Alain Corbin sobre a praia e o imaginário ocidental. Trata-se, pois, de um empoderamento e uma diluição de todo poder. E a canga é um objeto multifuncional, brasileiramente civilizador – ao mesmo tempo que profundamente despretensioso.

Tenho pensado muito na praia como território de resistência. Desde os curistas do século XVIII, que iam à praia para se livrar da melancolia e do spleen, ao píer de Ipanema nos anos 1970. A praia como expurgo da podridão (os podres poderes), como em Sêneca: “Faz parte da natureza do mar rejeitar sobre as praias toda secreção e toda impureza”. Purgação. Vou precisar de mais protetor solar.

E não custa lembrar: no Jardim do Éden não tinha mar. O Paraíso, com p maiúsculo, graças a Deus não tem nada a ver com a praia. Esta é nossa, inusurpável. TODO PODER À PRAIA!

Victor Heringer

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