Notas de leitura: encantamentos

Lambe-lambes (data e autor desconhecidos)

Lambe-lambes (data e autor desconhecidos)

Há um fenômeno nas grandes cidades brasileiras que sempre me incomodou: os lambe-lambes e pichações pretensamente poéticos, com frases de efeito, trocadilhos e similares, que assaltam os transeuntes com um arremedo (quase sempre é um arremedo) de encantamento. Há o clássico e onipresente “Mais amor, por favor”. Sua proliferação calhou de parecer uma reação nervosa à revolta das ruas juninas, e também ele é politicamente carregado (inclusive anterior a 2013), mas hoje soa mais como o grito unânime “contra a corrupção” do que uma intervenção realmente desconcertante. Afinal, quem é, superficialmente ao menos, a favor da corrupção? Quem seria contra “mais amor”, ainda por cima pedido com jeitinho? E há milhares de outras, menos potentes, cada vez mais fincadas na linguagem publicitária, na poesia de salão e num bom-mocismo em franco desalinho com a experiência da cidade.

A intenção, evidentemente, é boa. A poesia de salão e o bom-mocismo têm que existir, nem que seja como alvo dos diógenes-de-sínope contemporâneos. E a rua é mesmo terreno de disputa. O incômodo vem de identificar, no efeito pretendido, uma espécie de contrafação do encantamento. A nostalgia pelo mundo coalhado pelo maravilhoso é bonita, o método hipster é que não dá caldo. Algo está faltando. A minha hipótese é a de que o que está ausente nesses lambe-lambes não é a poesia, mas o mundo. O encantamento só se dá no encontro dos dois.

Por isso, é um alívio me deparar com obras capazes não só de ver, mas de incorporar o encantamento. Recentemente, li A imensidão íntima dos carneiros, de Marcelo Maluf, um romance no qual se fabula a jornada migrante de uma família libanesa e em cujo cimento está misturado o maravilhoso (ou o fantástico, na definição clássica de Todorov): carneiros que falam, homens transubstanciados e histórias com sabor árabe clássico. Isso em meio ao mundo real (em grande parte “realmente real”, pois ligado à experiência concreta do autor), violento e historicamente aleatório, que lambe-lambe nenhum redimirá. Não se trata, pois, de uma questão de ingenuidade – cf. carneiros falantes e djinns –, mas de engenho.

Outro encantado fincado no mundo-mesmo é Luiz Antonio Simas, em seu Pedrinhas miudinhas, que fiz questão de comprar e ler em solo fluminense, por pura superstição. Simas, historiador e professor, é um pensador e falador coerente, ao qual muitos de nós – cariocas, mas não só; macumbeiros, mas não só – estamos habituados: a ele interessam

foliões anônimos, bêbados líricos, jogadores de futebol de várzea, clubes pequenos, putas velhas, caminhoneiros, retirantes, devotos, iaôs, ogãs, ajuremados, feirantes, motoristas, capoeiras, jongueiros, pretos velhos, violeiros, cordelistas, mestres de marujada, romances de subúrbio, embalados ao som de uma velha marcha-rancho, triste de marré deci, que ninguém mais canta.

E nunca o vi ao lado de pedregulhos, só mesmo dessas miudinhas, que perpassam o livro. É ode atrás de ode ao Rio e a um Brasil que ele apresenta para muitos e muito desavisados brasileiros. E, claro, ali está o encantamento – inclusive em sua forma original, uma delas, que ele conheceu nos terreiros de xambá e encantaria da avó: “O encantado é aquele que não conheceu a experiência da morte, transformando-se, em vida, num vento, numa rocha, numa praia, numa árvore, numa folha, nas areias do fundo do mar, dos desertos e das serras”. Nas coisas do mundo-mesmo, onde quem criou o samba foram criminosos e sifilíticos e no qual sabemos que quem guarda o maior acervo de artefatos ligados aos cultos africanos é o Museu da Polícia Militar do Rio de Janeiro. O mundo-mesmo mesmo, que, embora nos digam ser homogêneo, tem seus bolsões de maravilha. É preciso saber identificá-los para não ficar cantando (n)um mundo caduco.

E quem sabe cantar canta, como no poema do Dirceu Villa que a Modo de Usar publicou há umas semanas e que ficou comigo:

prece materna para corpo fechado

que não te achem as balas, ou farpas, meu filho
que falhem os que te quiserem ferir
que a tua dor neste mundo seja só a sina comum
da carne & dos ossos
que não te vejam os maus, & diante deles te vás
como dentro da névoa mais clara
que não te levem teus passos à senda sombria
que as plantas de teus pés, como as palmas de tuas mãos
não sejam vulneráveis aos vilões
que não perfure o teu coração ou as tuas costas a covardia
que se escondam de ti os perversos
que a treva se retire de onde estejas
que laves teu corpo sempre perfeito, sempre
sem as chagas da chantagem
que se afastem de ti o invejoso & seu veneno
as invectivas do ignaro & do cruel
que se desfaçam diante de ti todas as formas de afetar-te
a feitiçaria ou o logro
que não possam contra ti os ditadores & os tiranos
a intratável violência da ambição
que não te perturbe sequer o espinho dos falsos de perto
íntimos só de odiar & mentir
que tenhas, meu filho, a fortuna melhor, não a que brilha dourada:
a de fechar-te esta reza a tudo que almeja o teu mal

Victor Heringer

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