Notas de leitura no meio da mudança

Khajuraho (2015), Victor Heringer

Khajuraho (2015), Victor Heringer

☞ J.M Coetzee, Homem lento (2005)

As primeiras páginas são inquietantes. Um acidente, a difícil convalescência, o agarrar-se aos que cuidam de nós e a culpa, a raiva de que tenham que cuidar de nós. Se, em dado momento, a figura do autor, transmutado em Elizabeth Costello, não tivesse se intrometido no romance, esta nota seria outra.

A figura do autor se metendo é um vício da nossa época, eu mesmo gosto muito de me meter nas tramas. É um tique que retorna – como o soneto ou os diários de viagem – de tempos em tempos para assombrar prosadores juvenis e nobéis. A chamada “autoficção” é tanto um sintoma quanto uma tentativa de arejar o tropo, como Pirandello o fez no seu tempo, com os famosos personagens em busca de um autor.

As épocas do autor intrometido tendem a coincidir com aquelas em que a identidade do homem está sob risco (tema de outra obra pirandelliana, O falecido Mattia Pascal, onde se cunhou a bela expressão “Maldito seja Copérnico!”, por nos tirar do centro do universo). Mas a identidade humana está sempre ameaçada. Pirandello não foi contemporâneo de Copérnico.

E o autor sempre está lá. O desafio é ser como os escultores dos templos de Khajuraho, na Índia. São estruturas totais: não são representações do cosmo, mas o cosmo mesmo esculpido em pedra. Nessa pedra viva, está tudo, o sexo, a dança, os monstros, os deuses, a morte. E, no friso mais despretensioso, lá estão os escultores carregando as pedras, um operariozinho descansando, outro tocando flauta. Uma elegância a ser reaprendida pelo nosso tempo.

☞ Marcílio França Castro, Histórias naturais (2016)

No conto “A história secreta dos mongóis”, dois personagens analisam um mapa mongol: “Havia ali detalhes – certos recantos, certos atalhos – que só um olhar próximo e minucioso, carregado de afeto, de quem viveu como nômade, poderia ter registrado. ‘Quando a estética é nômade, o mapa é móvel’, me disse”.

Eis aí, talvez, a lógica resumida dessas Histórias naturais, muito diferentes entre si, mas guiadas pelo olho próximo e minucioso do contista. Há mecânicas neste livro que perpassam todos os textos (um amor pelo jogo de percepções, por apontar relações entre engrenagens que até então acreditávamos alheias), tal qual o mapa móvel que, por sua vez, sobrepõe-se a outro mapa para revelar a história secreta dos mongóis.

John Barth, falando certa vez sobre o amigo Donald Barthelme, citou uma conversa que os dois costumavam ter: o que diferencia um contista de um romancista? Por que alguns de nós nos sentimos mais confortáveis correndo maratonas e outros, cem metros rasos? Não me lembro da resposta, talvez não tenhamos resposta, mas as Histórias naturais apontam um caminho.

☞ Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel (1940)

Havia algo nesse livro que me incomodava profundamente: o jardinzinho plantado pelo protagonista para impressionar Faustine, sua imagem amada. Me parecia um artifício bobo, tanto internamente (algo que o próprio narrador admite) quanto tecnicamente. Algo duplamente irritante. Me parecia uma excrescência na “trama perfeita”, como Borges a chamou.

Mas há virtude na releitura – talvez só aí. O ato patético de representação do casal (o protagonista e sua amada) por meio de um jardim é a única representação vital na trama, um quadro vegetal inserido numa ilha projetada que, por sua vez, está inserida em um artefato verbal que projeta o vegetal na projeção, ad nauseam. Um curto-circuito na representação. É óbvio que Borges vê mais que nós.

Victor Heringer

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